Coda.Br 2019 – Jornalismo de dados em nível local

Texto elaborado com a colaboração de Huri Henrique Paz da Costa, graduando em Sociologia pela Universidade Federal Fluminense e participante da cobertura colaborativa do evento. Assista aqui à playlist completa com os vídeos deste painel, que está disponível no canal da Escola de Dados no Youtube.

O painel de abertura da IV Conferência Brasileira de Jornalismo de Dados e Métodos Digitais, Coda.Br 2019, reuniu Cheryl Phillips (Stanford Computational Journalism Lab), Cecília Oliveira (Fogo Cruzado) e Matt Kiefer (JSK fellow) , que contaram como conseguiram superar os obstáculos de produzir reportagens orientadas por dados em pequenas redações.

Natália Mazotte, cofundadora da Escola de Dados e criadora da Conferência, mediou a mesa no auditório principal da Escola Superior de Propaganda e Marketing – ESPM (São Paulo) na manhã de 23 de novembro de 2019. Confira abaixo alguns destaques da sessão e os vídeos com as apresentações na íntegra.

Compartilhamento de dados como ferramenta de transformação social

Cheryl Philips, fundadora do Stanford Computational Journalism Lab, falou sobre a importância de mais colaboração no processo de coleta, processamento e armazenagem de dados. Ela apontou o armazenamento dos dados a longo prazo após a coleta como um desafio, pois é comum que mudanças nos servidores web tornem os dados indisponíveis, impedindo assim que sejam utilizados para contar outras histórias. 

Neste sentido, Cheryl apresentou algumas iniciativas do programa Big Local News, que agrega e processa dados governamentais locais dispersos para que eles não sejam perdidos, mostrando ainda potencialidades que as notícias locais têm para impacto social. “Acreditamos que o compartilhamento de dados pode ser uma ferramenta de transformação social. Nós somos parte de um novo tipo de ecossistema de jornalismo”, afirmou. 

O Stanford Open Police Records é outro projeto da universidade desenvolvido com o propósito de apoiar a produção de notícias localmente. A iniciativa coletou dados sobre as paradas policiais nos Estados Unidos e desenvolveu estatísticas a respeito. 

“Em toda pergunta há uma história e os dados também contam uma história. Por exemplo, no Texas os dados indicam que as paradas policiais não estavam sendo racialmente diferenciadas. Entretanto, foi descoberto que os policiais estavam parando homens e populações negras/latinas e categorizando como brancos”, afirma.

Por uma visualização de dados humanista

Cecília Olliveira, jornalista e fundadora da plataforma Fogo Cruzado, contou como foi estruturada o aplicativo que monitora confrontos armados no Rio de Janeiro e em Recife. O Fogo Cruzado foi desenvolvido para mostrar e alertar pessoas sobre a ocorrência de confrontos armados. Com a consolidação dos dados, é possível observar padrões ao longo do tempo e, através da geolocalização, é possível verificar a frequência de tiroteios perto de unidades de saúde, avenidas principais ou entorno escolar, por exemplo.

A importância do Fogo Cruzado está na sua produção própria de dados sobre violência, que são independentes dos dados governamentais. Isto é importante principalmente em períodos em que o governo não possui interesse na produção destas informações. Cecília chamou também atenção para a necessidade de visualização de dados humanista, que não considere apenas os números brutos da violência, mas leve em conta as realidades das pessoas imersas nesse tipo de situação. 

A jornalista falou ainda sobre alguns métodos de checagem das informações coletadas. “Como a gente checa as informações? Para quem baixa o fogo cruzado no celular, a informação chega, em 90% das vezes, em menos de 10 minutos entre o fato ocorrido e a notificação. A confirmação se dá nas redes sociais. Ou seja, se ninguém falou em redes sociais sobre o disparo, nós descartamos”

Jornalismo investigativo e desigualdade social

Matt Kiefer, editor de dados do The Chicago Reporter, falou sobre a importância do jornalismo investigativo para compreender os processos de desigualdade social, transformando o jornalismo numa ferramenta de transformação social. Ele mostrou o projeto Settling for Misconduct, que trata das despesas governamentais com processos de direitos civis por conta da má conduta dos policiais de Chicago.

A extração de dados foi realizada manualmente: os funcionários criaram caso a caso etiquetas para os tipos de má conduta, como uso excessivo da força, procura ilegal e outros. O projeto mensurou o custo para o Estado das formas de mau comportamento dos servidores.

Outros marcadores sociais também estão sendo trabalhados no Chicago Reporter, como classe e território. Por exemplo, em “Wage theft victims have little chance of recouping pay in Illinois” estatísticas sobre raça e localização dos afetados por roubos de salários foram investigadas. A articulação entre esses marcadores sociais é importante para detectar os padrões dos casos.

Matt também falou do site Chi.vote, um esforço conjunto entre redações, desenvolvido para mapear os candidatos e eleições em Chicago, com o objetivo de disponibilizar informações que ajudem o eleitor a entender mais sobre em quem estão votando nas eleições municipais. O conteúdo também foi traduzido para espanhol, tendo em vista a grande comunidade de latinos na cidade. 

“Acredito que existe um pequeno movimento – mas que tem perspectivas de crescimento – para que o processo de trabalho com os dados seja mais colaborativo. Dá mais trabalho ser colaborativo, então é importante pensar em longo prazo sobre como essa colaboração irá funcionar, mas o impacto é muito melhor”, falou.

Perguntas e Respostas

A sessão foi encerrada com uma rodada de perguntas respondidas pelos palestrantes. Confira a conversa no vídeo abaixo

https://www.youtube.com/watch?v=ETQoebtAMgk&feature=youtu.be

 

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