Nos bastidores da notícia “Elas no Congresso”

Para facilitar o acompanhamento das decisões legislativas sobre os direitos das mulheres, o projeto Elas no Congresso lançou em junho de 2020 uma plataforma que monitora a atuação dos parlamentares, fazendo uso de dados públicos e uma metodologia de análise inédita, que foi desenvolvido com organizações parceiras e faz uso de um ranking para categorizar os deputados e senadores.  Também é possível acompanhar as tramitações em tempo real, por meio da robô @elasnocongresso no Twitter.

A Escola de Dados fez uma breve entrevista com Bárbara Libório, jornalista da Revista AzMina e coordenadora do projeto. Confira abaixo o diálogo e descubra como você pode tirar proveito destes dados para desenvolver suas próprias análises.

Ranking de parlamentares. Fonte: Elas no Congresso

Do ponto de vista do trabalho com dados, qual foi a maior dificuldade e como vocês a enfrentaram? Foram de ordem técnica ou na construção da metodologia? Ou ambas? Alguma dica que dê para compartilhar?

O grande desafio foi a construção da metodologia. Foram várias etapas depois que capturamos todos os projetos criados em 2019 na Câmara e no Senado. Selecionar as palavras-chave para buscar projetos que tratavam dos direitos das mulheres, escolher os tipos de proposições que iríamos analisar, e um trabalho manual que foi ler todas as ementas dos projetos pra só selecionar aqueles que realmente tratavam de temas do nosso interesse. A parte estatística também foi muito importante pra construir a metodologia. A gente queria analisar os parlamentares por dois critérios: autoria de projetos e votação de projetos. Construímos um cálculo estatístico pra cada um dos critérios e depois um cálculo que coloca essa pontuação final numa escala que vai de -100 a 100. O trabalho de checagem nesse processo também foi exaustivo: checar ementas, avaliações, notas.

Acho que essa é uma dica importante: lidar com essa quantidade de dados, que envolve informações de PLs e parlamentares (partido, estado, etc) é um processo que exige uma checagem contínua. Eu rechequei essas etapas várias vezes e para isso foi importante ter uma metodologia bem documentada, em que fosse possível repassar os passos que fizemos. Isso eu levo para a vida: documente a metodologia conforme você vai fazendo o passo a passo. Recebemos muitos feedbacks positivos de que a metodologia estava bem documentada.

Como foi este processo de documentação da metodologia utilizada? Poderia contar um pouco mais do que funcionou (ou não) por aí?

A gente se inspirou muito na metodologia do Ruralômetro. Mas tivemos que fazer algumas mudanças do caminho original. A gente queria pegar legislaturas anteriores, mas como houve uma renovação muito grande do congresso em 2018, seriam muitos pontinhos, muitos deputados e senadores que não estavam mais em exercício. E também teríamos que equalizar as notas porque haveria parlamentares com 1 ano de casa e outros com 5. Discutimos soluções e então decidimos adotar só a última legislatura. Conversamos com a equipe do Ruralômetro, contratamos uma consultoria estatística que fez os cálculos em R e documentamos tudo num texto que foi editado por todos da equipe pra que o texto ficasse didático.

E há planos de incorporar novas fontes ou análises de dados no futuro, que você possa adiantar?

Sim! Nessa primeira etapa não conseguimos incluir as notas de votações de projetos porque não houve votações nominais relevantes sobre os temas que monitoramos. A ideia é que isso seja incorporado nas próximas avaliações e assim todo os parlamentares sejam pontuados e ranqueados, mesmo aqueles que não criaram projetos, mas que se posicionaram em votações importantes.

Por fim, alguma dica de abordagem para jornalistas ou pesquisadores que queiram utilizar os dados ou o ranking?

É muito interessante ver como há divergências de posições dentro dos partidos. O Podemos tem o primeiro lugar e o último lugar do ranking do Senado, por exemplo. Também é interessante ver as abordagens regionais. Tem estados que tem péssimos índices de violência contra a mulher, por exemplo, mas com parlamentares que apresentam bons projetos. Como os dados são abertos é possível categorizar os projetos de várias maneiras e fazer diferentes análises. Nossa equipe mesmo ainda não terminou de explorar todas as possibilidades.

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