Saúde no Jornalismo e a Covid-19

Diante da pandemia do novo coronavírus no ano de 2020, o tema de abertura da V Conferência Brasileira de Jornalismo de Dados e Métodos Digitais não poderia ter sido outro. Realizado pela primeira vez de forma virtual, o Coda.Br recebeu em seu primeiro painel, ‘Saúde no Jornalismo e a Covid-19’, a presença do divulgador científico Atila Iamarino, da jornalista Fabiola Torres (Salud con Lupa/Peru) e do pesquisador Marcelo Gomes (Fiocruz). A conversa foi mediada pela diretora-executiva da Open Knowledge Brasil, Fernanda Campagnucci.

O evento ocorreu no dia 2 de novembro às 19h. Confira o registro da atividade com tradução simultânea abaixo.

Atuando sob diferentes ângulos no combate aos efeitos da pandemia, Átila e Marcelo compartilharam o trabalho que têm realizado na análise e comunicação dos dados da pandemia, refletindo sobre o legado dessa experiência para a relação entre dados de saúde pública, jornalismo e a população. A peruana Fabiola destacou apresentou a iniciativa Salud Con Lupa, que faz uma cobertura especializada na área de saúde, e explorou ainda o papel do jornalismo em investigar as consequências da Covid-19 para além dos números de mortes e casos, evidenciando para o público o agravamento de problemas pré-existentes no contexto latino-americano, como a fome, o desemprego e a desigualdade social.

O LEGADO DA PANDEMIA PARA A ANÁLISE E COMUNICAÇÃO DE DADOS DA SAÚDE

Co-criador do ScienceBlogs Brasil e do canal no Youtube Nerdologia, Atila Iamarino é doutor em microbiologia pela Universidade de São Paulo (USP) e foi pesquisador na USP e na Yale University. Em 2020, Atila se destacou como um dos protagonistas na comunicação sobre a Covid-19 e o distanciamento social no Brasil. No Coda.Br, ele contou que sentiu um grande aumento de responsabilidade em seu trabalho, uma vez que agora não fala apenas para os interessados em ciência, mas para o país inteiro.

Além disso, lembrou também que, durante a epidemia de ebola na África em 2014, as revistas científicas de acesso fechado se viram obrigadas a abrir seu conteúdo repentinamente, nem que fossem apenas os artigos sobre o tema. Já atualmente, ele vê um cenário de progresso no acesso aberto às publicações científicas. Nesta pandemia, Atila observou quando as revistas já disponibilizaram praticamente todos os artigos sobre a Covid-19 de graça desde o início. 

Por outro lado, ele atentou que essa oferta massiva de dados e informações, incluindo preprints (artigos científicos publicados ainda sem revisão por pares), levou a uma comunicação científica precipitada, muitas vezes sem uma análise séria ou importante por trás. Ele citou ainda os desafios dos jornalistas ao apresentarem os dados para a população, que em muitos momentos se deparou com análises de difícil interpretação.

Ainda assim, ele elogiou a cobertura feita pela mídia brasileira e elogiou o fato de o Jornal Nacional atualmente abordar conceitos como média móvel, uma noção até pouco tempo atrás considerada como difícil de ser abordada para o grande público. O divulgador científico ressaltou que, apesar dos desafios envolvendo os dados divulgados pelo Ministério da Saúde, como a falta de transparência sobre testes, os jornalistas puderam contar com um bom material – especialmente pela concentração dos dados pelo Sistema Único de Saúde (SUS) – e forneceram novas análises a partir da construção de painéis próprios sobre a pandemia.

“A pandemia não é um fenômeno de 6 meses, não é um fenômeno de 1 ano, ela é uma mudança de vida. É uma mudança social, é uma mudança do mundo agora. Então as medidas que a gente está tomando tem que ser medidas que são mais duráveis também”, reforçou Atila. O pesquisador espera que, para a comunicação nas áreas de ciência e saúde, o legado seja também de construção de plataformas com atualização de dados em tempo real, pois atualmente observa que existem muitos esforços para chegar a resultados que se tornam obsoletos depois de pouco tempo.

OS DESAFIOS DA NOTIFICAÇÃO E ESTIMATIVA DE CASOS DE COVID-19 E SRAG

O pesquisador Marcelo Gomes realizou uma importante apresentação sobre dados e sistemas de notificação relacionados a Covid-19. Doutor em física pela UFRGS e pesquisador em saúde pública no Programa de Computação Científica da Fiocruz (Procc/Fiocruz), Marcelo coordena o InfoGripe – que monitora casos e óbitos por Covid-19, Síndrome Respiratória Aguda Grave (SRAG) e Influenza (gripe) no país.

Ele explicou que o Brasil tem um bom desempenho quanto ao registro de doenças, com cobertura nacional ampla, mas há alguns desafios. Por exemplo, ao comparar dados entre municípios ou até de uma única cidade em diferentes períodos, é preciso estar atento aos critérios de testagem, que podem variar de cidade para cidade e também em um mesmo local ao longo do tempo. Além disso, mesmo que o método de testagem seja igual, deve-se observar se os testes aplicados são os mesmos – o que pode provocar a confirmação em momentos distintos dos casos.

Marcelo apontou que nem todos os dados do InfoGripe são casos de SRAG. Para chegar a eles, é preciso que o usuário aplique os filtros de febre e outros sintomas adequados. Essa abordagem evita uma perda maior de dados por eventual preenchimento incompleto, assim como a reavaliação de critérios de classificação, mas exige da pessoa que está analisando os dados conhecimento sobre os filtros necessários que devem ser aplicados, caso o objetivo seja estudar casos de SRAG.

Outro cuidado necessário ao lidar com dados de casos de SRAG é o da escolha da data que será utilizada para as análises. O pesquisador explicou que, na vigilância epidemiológica, é fundamental utilizar a data de primeiros sintomas, pois esta é mais próxima do evento da infecção, permitindo assim a avaliação do estado da transmissão e a da geração de novos casos. 

No entanto, há um atraso entre a data dos primeiros sintomas e a data em que o caso será registrado no sistema. Como consequência, o número de casos sempre parece estar diminuindo nas semanas mais próximas à data atual, pois os registros para os dias mais recentes ainda não entraram no sistema.

Para resolver a questão, o InfoGripe realiza estimativas do que ocorre nas semanas mais recentes, utilizando métodos estatísticos e baseando-se no padrão de demora de registro de casos em cada localidade. Assim, as visualizações se aproximam mais da realidade atual.

“Quanto mais gente tiver, qualificada, trabalhando em cima desses dados, mais rica vai ser a interpretação e a capacidade de gerar informação para embasamento de ação dos órgãos públicos e da população”, afirmou Marcelo.

Para ele, a correta interpretação dos dados é fundamental para “a própria capacidade da população avaliar se a resposta do agente público está sendo adequada ou não à realidade atual”, concluiu, no debate ao final do painel.

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A COBERTURA JORNALÍSTICA DA PANDEMIA E SEU IMPACTO EM PROBLEMAS JÁ EXISTENTES NA AMÉRICA LATINA

A corrupção, bem como a falta de investimento e até mesmo crença na ciência, não foram problemas enfrentados exclusivamente pelo Brasil durante a pandemia. Pelo contrário, foram compartilhados por toda a América Latina. A jornalista peruana e diretora da Salud con Lupa, Fabiola Torres, falou sobre o papel do jornalismo na investigação dos problemas causados e potencializados pela Covid-19 diante desse cenário.

Sua caixa de ferramentas para agir nesse contexto é composta por quatro itens: jornalismo colaborativo, aliança com organizações científicas, análise de dados e checagem de fatos (fact-checking)

Sobre este último, destacou a iniciativa CompruebaUn antídoto contra la desinformación da Salud con Lupa.

Quanto às pautas, ela apresentou duas dimensões importantes: as de conexão direta com a Covid-19 e a de efeitos indiretos. Na primeira, Fabiola apontou para a necessidade dos jornalistas abordarem o que poderia ter sido feito para evitar que tantas pessoas atingissem os estados mais críticos da doença. Isso inclui analisar as compras de respiradores, disponibilidade de leitos UTI e investimentos nos sistemas de saúde. “O que não pode se repetir é que um vírus do século 21 chegue a um sistema de saúde do século passado”, ela afirmou.

Sobre os efeitos indiretos, a jornalista pontuou que a pandemia começou como uma crise de saúde e se transformou “no mais duro choque econômico e social do século”. Por isso, é preciso que os jornalistas não deixem de olhar para os problemas que a sociedade já enfrentava e como os mesmos foram agravados pela pandemia. Voltando o olhar para temas como: desigualdade social, populações vulneráveis, direitos humanos, reformas sanitárias, fome, pobreza, desemprego, educação, saúde mental e qualidade de vida. Um exemplo citado foi a reportagem Los Otros Pacientes, que abordou a interrupção do tratamento de doenças crônicas, como o câncer, durante a pandemia.

A Salud con Lupa é uma plataforma digital de jornalismo colaborativo dedicado à saúde pública na América Latina, formada por alianças entre jornalistas latino-americanos, mídia e profissionais de diferentes disciplinas – tecnólogos, ilustradores, fotógrafos e médicos – interessados ​​em melhorar a qualidade da informação disponível a todos.

Átila Iamarino

Atila Iamarino

Atila Iamarino é Dr. em Microbiologia pela USP e foi pesquisador na USP e na Yale University. Foi co-criador do ScienceBlogs Brasil, braço em português da maior rede de blogs científicos do mundo e do Nerdologia, um canal de divulgação científica no YouTube. Hoje é comunicador no seu canal no Youtube com mesmo nome com mais de 1 milhão de inscritos. Também atua na área educacional como consultor e produtor de material didático digital e educação na internet. Ganhou notoriedade pela comunicação sobre a pandemia da COVID-19 no Brasil em redes sociais.

Fabiola Torres

Fabiola Torres

Jornalista, é diretora do Salud con Lupa, site de jornalismo investigativo em temas relacionados à saúde, Knight Fellow do ICFJ e membro do Consórcio Internacional de Jornalistas Investigativos.
Marcelo Gomes

Marcelo Gomes

Doutor em física pela UFRGS e pesquisador em saúde pública no Programa de Computação Científica da Fiocruz (PROCC/Fiocruz), especializado em modelos de propagação de doenças, vigilância epidemiológica, e mobilidade humana aplicada à epidemiologia. Integrante do MAVE: Grupo de Métodos Analíticos em Vigilância Epidemiológica (PROCC/Fiocruz e EMAp/FGV), e coordenador do InfoGripe.
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Fernanda Campagnucci

É diretora-executiva da Open Knowledge Brasil. Graduada em Jornalismo e mestre em Educação, foi integrante da carreira de Analista de Políticas Públicas e Gestão Governamental na Prefeitura de SP, onde desenvolveu projetos de transparência e integridade pública desde 2013. Coordenou o Pátio Digital, iniciativa de governo aberto da Secretaria Municipal de Educação. É fellow de governo aberto da OEA e integrante da Rede de Líderes em Dados Abertos do Open Data Institute, de Londres.

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