Cobertura da crise climática

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SOBRE O PAINEL

De Glasgow, no Reino Unido, ao Brasil: no dia 12 de novembro, enquanto ocorria na Europa o último dia da Conferência das Nações Unidas sobre as Mudanças Climáticas de 2021 (COP26), por aqui, a Escola de Dados promovia o último painel da VI Conferência Brasileira de Jornalismo de Dados e Métodos Digitais (Coda.Br 2021). O tema era oportuno: “Cobertura da crise climática”, com Laura Kurtzberg (Ambiental Media), Francy Baniwa (Museu Nacional), Clayton Aldern (Grist) e mediação de Gustavo Faleiros (Pulitzer Center).

Líder de visualização de dados da Ambiental Media, Kurtzberg publica matérias sobre dados ambientais com interesse especial pela Amazônia, e também ensina a seus alunos na Florida International University, onde é professora assistente, a treinar o olhar científico e a comunicar informações a partir de dados ambientais.

Para Aldern, que é repórter de dados, o trabalho de informar sobre as mudanças climáticas consiste em tornar mais concreto e real para o público um assunto muito abstrato. Afinal, ele explica, a mudança climática é amórfica: cruza fronteiras, gerações e não respeita o fluxo do tempo como nós o imaginamos. Mas, nos dados, ele enxerga a possibilidade de manter os pés firmes em um ambiente tão escorregadio.

Porém, não bastam só os dados para contar essa história completa. Baniwa destaca que é essencial ter tanto o ponto de vista científico quanto o das populações indígenas sobre o tema. Mestra e doutoranda em Antropologia Social no Museu Nacional, a pesquisadora conta que os indígenas sentem na pele as mudanças climáticas e é o conhecimento dessas populações que têm fomentado uma das respostas ao fenômeno. É o caso da formação dos Agentes Indígenas de Manejo Ambiental (Aimas), que realizam o monitoramento ambiental e climático do Rio Negro.

Colheita de dados ambientais

Como defende Aldern, a falta de dados e informações sobre um problema implica na falta de ação para solucionar o mesmo. Assim, a ausência de dados pode influenciar na injustiça climática. Muitas vezes, não se obtêm dados ambientais sobre determinada área protegida porque os pesquisadores não podem entrar lá.

Neste sentido, Francy Baniwa levanta a importância de se ter olhares indígenas inseridos na construção de dados e mapas relativos às áreas que habitam. “A coleta de dados, ouvindo, gera uma construção muito rica de formações, até para ajudar a pensar sobre a própria mudança do tempo”, afirma.

Representação da crise climática: como alcançar o público

Segundo a líder de visualização de dados da Ambiental Media, Laura Kurtzberg, a técnica é muito efetiva em gerar uma representação quase artística do sentimento e realidade que os dados contém, possibilitando que quem as consome faça sua própria interpretação visual dos dados. Ela explica que a representação gráfica facilita muito a compreensão de um problema, se comparada à visualização direta dos dados em tabela.

Clayton Aldern, do Grist, destaca a importância de formatos variados de conteúdo para alcançar públicos diversos. A pergunta “Estamos criando o tipo de contexto que faz com que as pessoas se identifiquem?” é fundamental para guiar o fluxo do trabalho.

Nesse sentido, Baniwa compartilha que há comunidades indígenas onde não ocorre o acesso à Internet ou ao computador. As imagens, muitas vezes, chegam pela televisão. Mas sempre, também, ao olhar a paisagem e sentir o impacto das mudanças. Para criar esse tipo de comunicação que promova a identificação de pessoas indígenas, a pesquisadora sugere a inclusão de jovens indígenas neste processo, pois eles certamente terão um olhar muito diferenciado.

Na prática, o que jornalistas e comunicadores podem fazer é, por exemplo, comparar tamanhos com referências que as pessoas já conhecem, como a já bastante comum equivalência em números de campos de futebol, por exemplo. Mas, essencialmente, é preciso que esses dados, infográficos e mapas estejam sempre acompanhados das histórias das pessoas que são afetadas pela reportagem. Como diz Kurtzberg: é preciso “colocar a escala humana de volta no mapa”.

Enfrentar os dados e ouvir todos os lados

Os jornalistas que atuam na cobertura da crise climática devem tomar como missão despertar o interesse do público sobre o tema para além da COP26. Encerrada a repercussão do evento, é preciso manter o sinal de alerta sobre esta crise para que as autoridades sejam cobradas e responsabilizadas pelo que prometeram fazer.

E, para isso, o consenso é de que a colaboração é um aspecto inerente ao trabalho. Como conclui Laura Kurtzberg, “não é preciso ter medo de se aprofundar nos dados. Como comunicadores, temos a responsabilidade de fazê-lo e do jeito mais ético, mais colaborativo possível”.

DURAÇÃO

1:30h

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Laura Kurtzberg

É professora assistente na Florida International University, analista de dados do Pulitzer Center e líder de visualização de dados da Ambiental Media, onde trabalhou em projetos para mapear e visualizar a floresta amazônica. Obteve seu mestrado em Mídia Interativa pela Universidade de Miami e também é bacharel em Ciência da Informação pela Universidade do Arizona.

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Francy Baniwa

É indígena da Terra Indígena Alto Rio, Comunidade Wanaliana – Rio Içana, município de São Gabriel da Cachoeira-AM. Liderança Indígena, pesquisadora, antropóloga e mãe. Mestra e doutoranda em Antropologia Social no Museu Nacional (UFRJ).

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Clayton Aldern

É repórter de dados sênior da Grist, uma revista sem fins lucrativos que cobre mudanças climáticas, justiça ambiental e soluções climáticas. Bolsista do Reynolds Journalism Institute, seus textos e visualizações de dados já apareceram na The Atlantic, The Economist, The Guardian, Vox e muitas outras publicações. Possui um mestrado em neurociência e um mestrado em políticas públicas pela Universidade de Oxford, onde estudou como bolsista em Rhodes. Aldern também é pesquisador afiliado do Centro de Estudos em Demografia e Ecologia da Universidade de Washington. Seus interesses de pesquisa atuais dizem respeito aos impactos neurobiológicos das rápidas mudanças ambientais.

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Gustavo Faleiros

É editor da Rainforest Investigations Network (RIN) do Pulitzer Center. É jornalista ambiental e instrutor especializado em reportagens baseadas em dados. Em 2012, lançou o InfoAmazonia, uma plataforma digital que usa imagens de satélite e outros dados publicamente disponíveis para reportar sobre os nove países da floresta amazônica.

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