Jornalismo de Dados no Mundo

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SOBRE O PAINEL

Quais são os principais desafios do jornalismo de dados hoje? Quase 10 anos após a publicação do “Manual de Jornalismo de Dados: Como os jornalistas podem usar dados para melhorar suas reportagens” (O’Reilly Media, 2012), considerado uma das principais referências da área pela comunidade de dados, este painel marca o lançamento da versão brasileira do “Manual de Jornalismo de Dados: Rumo a uma prática crítica de dados” (Amsterdam University Press, 2021), segunda edição do livro. 

O debate “Jornalismo de dados no mundo”, realizado no quarto dia (11/11) da VI Conferência Brasileira de Jornalismo de Dados e Métodos Digitais (Coda.Br 2021), contou com a presença de Cédric Lombion, líder de dados e inovação na Open Knowledge Foundation; Jonathan Gray, pesquisador do King’s College London e coeditor da edição; e Liliana Bounegru, também coeditora da publicação e professora de métodos digitais no King’s College London. A conversa foi mediada por Natália Mazotte, co-fundadora da Escola de Dados e da revista Gênero e Número. 

Desafios para uma prática crítica do jornalismo de dados 

Liliana Bounegru apresenta as principais questões abordadas na nova edição do livro, pensada como um espaço colaborativo para diferentes perspectivas sobre o jornalismo de dados no mundo. Segundo ela, muita coisa mudou desde o lançamento do primeiro manual em 2012. “Agora, quase uma década depois, estamos no momento onde a prática está mais estabelecida e amadurecida, mas também mais questionada, dado o fato de vivermos um momento de pós-verdade”, contextualiza. 

Durante a apresentação, Bounegru sintetiza as ideias da obra, abordada pelos autores por diferentes ângulos, em três grandes desafios para uma prática crítica do jornalismo de dados. Para ela, uma das principais questões da comunidade hoje é conseguir criar histórias não só com dados, mas sobre os dados. O desafio envolve investigar a forma como os dados vêm sendo utilizados e incorporar o papel contra hegemônico ao jornalismo. Citando o capítulo em que ela mesma fala sobre isso com Jonathan Gray, Bounegru afirma que “o jornalismo de dados não funciona somente dentro de regimes dominantes, que convertem todos os aspectos da nossa vida em dados, mas também interroga esses regimes de dados e cria espaço para intervenções pública nessas estruturas”. 

De acordo com o livro, outro ponto de atenção para o jornalismo de dados é conseguir alinhar projetos aos problemas, atores e interesses de grupos marginalizados na sociedade, considerando desigualdades e contextos específicos. Isso significa aprofundar o debate sobre quem faz jornalismo de dados e quais interesses guiam esta prática. Ao longo da apresentação, a professora do King’s College London elenca exemplos de projetos de dados que destacam a perspectiva de grupos minoritários, como um trabalho sobre sub-representação de povos indígenas em dados oficiais. 

O terceiro e último grande desafio é cultivar formas reflexivas de contar uma história por meio dos dados. Isto é, “desenvolver estilos de contação de história que sempre venham com seu grau de incerteza”, esclarece Bounegru. Segundo ela, ainda vigora uma visão positivista acerca dos dados na área, o que estimula posicionamentos acríticos e autoconfiantes demais sobre resultados. Por isso, a professora sugere uma reflexão sobre maneiras de representar as incertezas nos trabalhos com dados e como abrir espaço para mais transparência sobre as metodologias digitais. Além disso, parte do desafio também inclui pensar também no papel das emoções para a construção de visualizações de dados que se conectem efetivamente com o público. 

Mudanças no jornalismo de dados na última década 

Mas afinal, o que mudou desde a primeira edição do “Manual do Jornalismo de Dados”, há quase 10 anos atrás? A pergunta de Natália Mazotte é o ponto de partida para a segunda parte da conversa, em que os participantes debatem sobre as principais questões levantadas no livro. 

Segundo Jonathan Gray, responsável também por editar a primeira versão da obra, quando o livro surgiu em 2012, o foco era na documentação das práticas de uma área que ainda estava emergindo. Hoje, os dados já estão mais presentes no dia a dia das pessoas e, justamente por isso, são também mais questionados. “Nós não podemos considerar mais os dados por si só porque eles têm sido desafiados de várias formas”, alerta Gray. 

Bounegru atribui parte do crescimento do jornalismo de dados à quantidade de escândalos envolvendo informações digitais que existem hoje, exigindo que mais investigações sejam necessárias. Além disso, a professora aponta uma transformação na forma como os dados são tratados a partir de uma abordagem mais crítica. De acordo com a professora do King’s College London, linhas como a do feminismo de dados estão trazendo olhares diversos para área, disseminando o sentimento de que é possível “usar dados para desafiar o poder”. 

O líder da Open Knowledge Foundation, Cédric Lombion, acredita que está cada vez mais evidente a desigualdade de recursos e investimentos em jornalismo de dados no Norte e Sul global. Além disso, ele também destaca o processo de familiarização da audiência, que passa a estar mais acostumada com representações visuais de dados e, por isso, podem ser mais críticas sobre o conteúdo. “Vemos cada vez mais pessoas criticando gráficos de jornalistas de dados – não porque estejam errados, mas por não estarem contando a história do jeito certo”, afirma. 

O papel do jornalismo de dados na era da desinformação

O painel ainda conversou sobre os desafios atuais nas práticas de transparência metodológicas. “O jornalismo de dados produz e publica muita coisa, mas se você olhar para dentro das redações, a maioria dos jornalistas não têm conhecimento básico para lidar com dados no seu cotidiano, dependendo muito da equipe especializada que fica no cantinho da sala”, analisa Mazotte.

Para Baunegru, é preciso desincentivar a “cultura da certeza” que existe hoje. “Precisamos ficar acostumados com o fato de que há incerteza em tudo”, aconselha. Gray, no entanto, alerta para que o debate sobre imprecisões não tire o valor dos dados, mas sirva como alerta de que eles não podem ser considerados uma representação 100% fiel da questão que estão levantando.  

Ao final do debate, os participantes ainda responderam a perguntas do público e aprofundaram outras questões levantadas no “Manual de Jornalismo de Dados: Rumo a uma prática crítica de dados”. Assim como foi com a primeira edição, o lançamento da obra gratuitamente em português é, além de mais um recurso de aprendizado e um documento sobre os grandes temas em disputa hoje, é também o retrato de uma comunidade cada vez mais aberta, crítica e transparente. 

DURAÇÃO

1:30h

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Jonathan Gray

É palestrante sênior em estudos de infraestrutura crítica no Departamento de Humanidades Digitais, King’s College London, onde atualmente está escrevendo um livro sobre mundos de dados. Ele também é cofundador do Public Data Lab, e Pesquisador Associado da Digital Methods Initiative (University of Amsterdam) e do médialab (Sciences Po, Paris). Juntamente com Liliana Bounegru, ele coeditou recentemente o Data Journalism Handbook (Amsterdam University Press, 2021).

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Liliana Bounegru

Liliana Bounegru é professora de métodos digitais no Departamento de Humanidades Digitais do King’s College London. Anteriormente, ela foi pesquisadora de pós-doutorado no Oxford Internet Institute (University of Oxford). Desde 2013 é pesquisadora na Digital Methods Initiative (University of Amsterdam), e pesquisadora associada no Sciences Po Paris médialab, onde foi pesquisadora visitante e professora em 2016. Ela obteve seu PhD (cum laude) da Universidade de Groningen e da Universidade de Ghent. Antes disso, ela estudou na Universidade de Amsterdã e na Universidade de Bucareste.

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Cédric Lombion

É líder de dados e inovação da Open Knowledge Foundation. Ele mora na França, mas já trabalhou em todo o mundo com organizações locais e internacionais em projetos de alfabetização de dados, incluindo dezenas de redações. Quando não está coordenando programas de treinamento e alfabetização de dados em nome da Open Knowledge Foundation, Cédric ensina jornalismo de dados no Instituto de Jornalismo de Bordeaux, França.

Natália Mazotte

Natália Mazotte

Jornalista de dados, é co-fundadora da Escola de Dados no Brasil e da revista digital Gênero e Número. Atualmente, é líder do programa de jornalismo do Insper, onde também atua como professora. Foi professora visitante nos cursos de pós-graduação da PUC-RS, ESPM e Coppe / UFRJ.

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