Mergulhando no jornalismo de dados

Por Samantha Sunne, 9 de março de 2016 

[O texto abaixo é um resumo do artigo “Diving into Data Journalism: Strategies for getting started or going deeper” escrito por Samantha Sunne. O resumo foi feito por Paulette Desormeaux, com tradução e adaptação de Adriano Belisário, no contexto do curso de jornalismo de dados realizado pelo Knight Center. No título de cada capítulo, há um link para a versão original e completa do texto.]

  1. Introdução
  2. O surgimento da reportagem de dados
  3. Como o jornalismo de dados difere do que os jornalistas sempre fizeram?
  4. Como começar ou fazer mais, se você já começou?
  5. Como estabelecer essas práticas em toda a redação e torná-las sustentáveis?
  6. Quais são os desafios e as possíveis armadilhas e como você pode evitá-las?
  7. Apêndice: recursos para aprender por conta própria

Introdução

Quando a tecnologia levou o jornalismo de dados às redações, alguns editores temeram que os princípios fundamentais de reportagem do bom jornalismo desaparecessem. Mas isso não aconteceu: eles permanecem intactos.

Dados são parte do jornalismo no mundo moderno. Hoje, podemos usá-los “de forma menos anedótica, com maior autoridade e para revelar histórias que, de outra forma, seriam invisíveis”. 

Os dados nos permitem criar um jornalismo mais sólido. Os vencedores do Pulitzer de 2015 mostram isso: na categoria Serviço Público, foi premiada uma reportagem baseada em dados sobre mulheres que sofreram violência doméstica na Carolina do Sul. Os co-vencedores da categoria Pesquisa revelaram dados sobre doações de lobistas e pagamentos do Medicare. Na categoria Explicação, o vencedor visualizou dados sobre empresas que sonegam impostos. 

Todos os exemplos são histórias que não teriam sido igualmente sólidas sem a análise dos dados, inclusive talvez sequer tivessem sido descobertas.

Este texto explica como incorporar a análise de dados às reportagens nas redações e como fazer com que essa prática cresça e se desenvolva, apesar dos desafios financeiros e de recursos humanos que ela enfrenta.

Capítulo 2: O surgimento da reportagem de dados

O texto menciona a experiência de dados de Steve Doig, professor da Escola de Jornalismo Cronkite da Arizona State University, que diz que a palavra-chave no jornalismo de dados é… “jornalismo”. Os projetos de dados começam e terminam com o know-how jornalístico: “como encontrar uma história, como encontrar impacto e interesse humano, como explicar conceitos ao público”.

Trabalhar com dados no jornalismo não é novidade. Em 1992, Doig trabalhou no Miami Herald quando um furacão atingiu a costa da Flórida. Ele cruzou os dados de inventário de danos à propriedade com informações fiscais para verificar se encontrava algum padrão. Ele descobriu que, quanto mais nova a casa, maior a probabilidade de ter sido destruída na tempestade. Em seguida, eles apuraram as inspeções para a construção das propriedades. Os dados mostraram que os inspetores conduziam 60 ou 70 inspeções diárias: impossível. Então, os repórteres examinaram contribuições para campanhas políticas e viram que, na Flórida, a maioria vinha do setor imobiliário. Eles tiveram que contratar uma agência de análise de dados para poder estruturar 10 anos de informações sobre contribuições para campanhas políticas impressas em papel. Um ano depois, em 1993, eles ganharam o Pulitzer para o Serviço Público. 

Hoje está ficando mais fácil e barato fazer jornalismo de dados, mas há muitos exemplos de projetos sem mérito. Como diz Jacob Harris, que passou anos na equipe de dados do New York Times, “é muito fácil colocar pontos em um mapa agora”. O ingrediente chave que falta é o jornalismo.

 

Crédito: New York Times 

 

Capítulo 3: Como o jornalismo de dados é diferente daquilo que os jornalistas sempre fizeram?

Alex Howard define em um artigo do Tow Center o que ele entende por jornalismo de dados: “reunir, limpar, organizar, analisar, visualizar e publicar dados para apoiar a criação de atos de jornalismo”.

Há consenso de que o jornalismo de dados inclui três categorias:

1. Obtenção: extração de um site, download de uma planilha, solicitação de informações públicas ou outras.

2. Análise: procure pistas, histórias ou padrões estudando os dados.

3. Apresentação: publique os dados de forma atraente e informativa. Pode ser em infográficos, formatos da web, aplicativos de notícias ou outros.

O que os jornalistas podem fazer com os dados, o que eles não podem fazer com os relatórios tradicionais?

1. Verificar qualquer declaração com maior autoridade.

2. Abordar histórias maiores.

3. Encontre novas histórias. Os dados oferecem uma perspectiva que não depende tão fortemente de instintos ou julgamentos individuais.

4. Esclareça questões obscuras.

Exemplo: a história que o The Guardian fez cruzando as casas de quem foi presos em protestos no Reino Unido com um mapa de áreas pobres. Descobriu que algumas das declarações do governo eram verdadeiras e outras não. Os dados permitem encontrar padrões para esclarecer esses problemas. Eles também nos permitem quantificá-los. 

 

Crédito: The Guardian

5. Os dados podem fornecer detalhes e perspectivas. Exemplo: este aplicativo do Propublica com dados de médicos, hospitais e cidades.

6. Os dados oferecem potencial para serem mais transparentes. Os repórteres podem disponibilizar para o público os bancos de dados com os quais eles constroem suas histórias. “Transparência é a nova objetividade”, tornou-se um novo ditado jornalístico. Jeremy Singer-Vine e sua equipe de dados no BuzzFeed publicaram o banco de dados e os cálculos que fizeram com ele, para suas pesquisas sobre migrantes altamente qualificados nos EUA que foram explorados por seus empregadores. 

7. Os dados podem tornar as reportagens mais eficientes.

Existem diferentes tipos de equipes de jornalismo de dados. De acordo com Aaron Pilhofer, que estudou o tema, aquelas de maior sucessão tendem a ser os que realizam atividades próprias, como investigações ou especiais, mas também colaboram com outros jornalistas por meio de treinamentos e ações para aumentar o “letramento” em dados da equipe como um todo.

Crédito: Power Reporting

Capítulo 4: Como começar com o jornalismo de dados

As habilidades que os jornalistas devem ter para começar no jornalismo de dados são duas: pensamento crítico e um nível básico de familiaridade com planilhas.

O pensamento crítico deve ser aplicado aos números e dados, como se aplica a fontes humanas. Cheryl Phillips, da Universidade de Stanford, explica que os jornalistas devem saber como “entrevistar” os dados, fazer as perguntas certas.

A familiaridade com a planilha refere-se à capacidade de criar e aplicar determinadas funções, como classificação (reorganizando as linhas para ver, por exemplo, o salário mais alto em uma lista de remuneração), filtragem (mostrando apenas os dados que nos interessam, por exemplo, doadores para campanhas políticas em apenas um Estado) e algumas operações matemáticas básicas (por exemplo, soma ou divisão).

Essas funções podem ser executadas no Excel ou no Google Sheets. Em seguida, conforme necessário, é possível avançar em ferramentas mais sofisticadas, como SQL e bancos de dados relacionais, por exemplo. 

 

Crédito: FiveThirtyEight

 

Como contratar pessoas com essas habilidades ou treinar a equipe que eu já tenho?

É difícil encontrar bons candidatos pois poucos jornalistas aprendem dados formalmente. 

Existem várias opções para treinar a equipe existente:

  • Oficinas ministradas por treinadores externos;
  • Faça “bootcamps” de dados (imersões sobre o tema)
  • Oficinas feitas por membros da equipe de dados;
  • Colaborações entre a equipe de dados e outros repórteres;
  • Peça aos repórteres que se treinem online;
  • Use redes de suporte;

No The Guardian, eles usaram uma combinação destas alternativas.

 

O quadro de vagas no NICAR. Crédito: Tony DeBarros

 

Aprendendo por conta própria: como jornalistas e estudantes podem começar nesse campo ou se ensinar

É uma boa idéia começar a trabalhar nos dados de um orçamento municipal. Para isso, é bom ler “Numbers in the Newsroom“, de Sarah Cohen, agora no New York Times.

Alguns bancos de dados usados ​​com frequência entre jornalistas norte-americanos são:

  • O censo
  • Estatísticas de emprego
  • Estatísticas de crimes do FBI
  • Documentos de financiamento de campanhas
  • Orçamentos locais 

 

Em que parte do fluxo de trabalho isso ocorre?

É importante prestar atenção em como as informações que consideramos valiosas estão sendo coletadas. Muitas investigações podem ser feitas com dados já coletados, mas ninguém analisou.

Hillary Niles é freelancer e consultora de dados. Ela sugere que os jornalistas questionem: que perguntas frequentemente surgem no setor que eu cubro? Quais relatórios eu leio com frequência? Os dados podem responder a essas perguntas ou simplificar a busca de padrões. Ao fazer essas perguntas, solicitar e analisar dados deveria se encaixar naturalmente no fluxo de trabalho.

 

Capítulo 5: Como estabelecer o jornalismo de dados na redação

Estabelecer um “estado de espírito” baseado em dados

A sustentabilidade pode começar de baixo – repórteres -, mas deve ter apoio editorial. Uma maneira é desenvolver um “estado mental de dados”; isto é, pensar que, em qualquer história que é feita, deve haver dados a serem buscados.

Como aumentar e manter a capacidade de trabalhar com dados, apesar das limitações financeiras e pessoais

Uma possibilidade é usar fontes como o GitHub, um site que oferece ferramentas de código aberto que podem ser usadas gratuitamente. A limitação é que você precisa de repórteres que sabem como usá-los.

Há ferramentas simples, como o Excel e o Google Spreadsheets. Há também o OpenRefine para organizar dados e o Silk para criar gráficos. Aproveite as ferramentas gratuitas, como o Tabula, que pega tabelas de dados em PDFs e as transforma em planilhas.

Preencha a lacuna entre repórteres e editores

É importante mostrar como dados podem aumentar o tráfego para um site de notícias. Tenha métricas de sucesso.

A chave é dar aos jornalistas tempo para aprender, praticar e experimentar os dados.

Capítulo 6: Os desafios do jornalismo de dados

Preocupações éticas de trabalhar com dados

A Associated Press anunciou que irá incorporar em seus manuais de estilo de 2017 padrões para trabalhar com dados.

Um aspecto ético chave ao trabalhar com dados não é retirá-los do contexto. Isso implica fazer uma apuração em campo para entender de onde vêm esses dados e como eles são interpretados. Os dados são preparados por seres humanos e não estão livres de erros, preconceitos ou falácias.

Alberto Cairo sugere colaborar com especialistas em análise de dados. Jeff Sonderman, da API, explica que “os dados podem ser incorretos, enganosos, prejudiciais, vergonhosos ou invasivos” e que apresentá-los “como uma forma de jornalismo exige sujeitá-los a um processo jornalístico”.

 

Crédito: Seattle Times 

 

Dicas para evitar desastres:

  1.  Não se apresse em tirar conclusões.
  2.  Investigue seus dados antes de analisá-los.
  3.  Explique os dados claramente para o seu público.
  4.  Não republicar conclusões que outros tenham extraído dos dados.
  5.  Faça uma apuração em campo.

 

Crédito: Source

 

Capítulo 7: Apêndice: recursos para aprender por conta própria

 

Tutoriais:

Redes de suporte

Bancos de dados

 

* Links fora do ar (Acesso em janeiro de 2020)

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