Primeiros passos no jornalismo de dados

Para jornalistas, o trabalho com dados pode parecer assustador à primeira vista. Estatística, programação, design da informação e outras habilidades poucos trabalhadas no jornalismo ganham o primeiro plano, desencorajando algumas pessoas a irem a fundo nesta área. Porém, quem está começando pode aproveitar algumas dicas e atalhos daquelas pessoas que também partiram do zero e hoje são consideradas referências na área.

Na IV Conferência de Jornalismo de Dados e Métodos Digitais (Coda.Br 2019), Natália Mazotte e Sérgio Spagnuolo apresentaram a sessão “Jornalismo de Dados 101: aprenda por onde começar“. Neste tutorial, iremos apresentar as principais dicas compartilhadas naquela sessão e também no post ‘Como começar no jornalismo de dados‘, escrito pela Natália recentemente, que também aborda o mesmo tema.

Trajetórias pessoais

Durante a sessão no Coda.Br, Natália e Sérgio começaram se apresentando. Antes de começar, iremos compartilhar um pouco da trajetória dos instrutores, para mostrar que ninguém nasce especialista no tema e encorajar você a trilhar seu próprio caminho.

Enquanto estudava jornalismo na Universidade Federal do Rio de Janeiro, no final de 2008, Mazotte passou seis meses nos Estados Unidos, onde teve contato com David Donald e um treinamento de CAR (Computer-Assisted Reporting). Segundo ela, seu interesse por tecnologia, análise, números e jogos de tabuleiros contribuíram para seus primeiros passos no jornalismo de dados. No retorno ao Brasil, em 2009, não havia um curso sobre o tema no país. Em 2010, realizou um laboratório de jornalismo investigativo com dados, na parceria que firmou com a UFRJ. “Há um papel essencial para experimentação dentro das universidades”, destaca Mazotte. Em seu contato com o Transparência Hacker, ela se aproximou da movimentação que resultou naquilo que seria a vinda do Open Knowledge ao Brasil (OKBr). Dentro da Open Knowledge britânica, havia o School of Data e Mazotte se ofereceu para ser voluntária local. Assim, começou a trazer a Escola de Dados ao Brasil.

“Não havia espaço nas redações para eu fazer o que queria, então passei a criar meu próprio trabalho” revela. Atualmente, ela estuda jornalismo de dados e temáticas relacionadas, como pesquisadora em Stanford, nos Estados Unidos.

Sérgio Spagnuolo contou que teve uma trajetória mais acidental dentro do jornalismo de dados. Sempre esteve em redações tradicionais e por muitos anos trabalhou na Reuters. “Entre 2010 e 2012, fiz análise de dados na minha dissertação do mestrado, sem nem saber o que estava fazendo”, comenta ele sobre o processo. Começou a se interessar por jornalismo de dados propriamente dito a partir da explosão do caso Snowden, em 2013. Spagnuolo fez um curso na Escola de Dados em 2014, com Natália Mazotte e Marco Túlio Pires. O grupo formado neste curso constitui alguns dos nomes de referência no jornalismo de dados atual no Brasil.

“Em 2015, comecei a pegar mais pesado nos estudos de programação”, comenta ele, que destaca ainda a importância da colaboração e a capacidade de aliar técnica, liderança de pessoas e excelência jornalística.

O que é (e não é) o jornalismo de dados?

Durante a sessão, foram listadas algumas características do jornalismo de dados:

  • Usa análise estatística aplicada ao jornalismo
  • Produtor de reportagens, visualizações e apps
  • Explorador (pode não dar em nada)
  • Paciente: boas análises levam tempo

E também os contra-exemplos. Jornalismo de dados não é…

  • Mesa de serviços para outras áreas
  • Milagreiro: “quero a análise de tudo pra hoje”
  • Restritivo: fica só na numeralha

Orientações gerais

Aproveitando as experiências nas redações e na criação de seu próprio veículo de comunicação baseada em dados, Sérgio Spagnuolo compartilhou a referência do Manual de Jornalismo de Dados para Redações. O material é excelente para quem quer implementar práticas de jornalismo de dados em um grupo, mas não sabe bem por onde começar.

Durante a sessão, Spagnuolo e Mazotte enfatizaram a importância de ter a curiosidade como motor nesta trajetória no jornalismo de dados. É importante escolher uma área que você gosta de cobrir: é nela que você analisará dados, para assim conseguir aprofundar mais seu conhecimento em tal área. Porém, os números por si só não são relevantes. Aliado hás perguntas clássicas de um “lead”, há também o “e daí?”. Isso envolve perguntas como: o que estes números afetam, quem afeta e como afeta? Infelizmente, mesmo as grandes redações não respondem isso, muitas vezes, notaram os instrutores.

Para quem tem dúvidas ou deseja colocar temas para debate, o melhor lugar é o Fórum sobre jornalismo de dados, criado pela Escola de Dados e Associação Brasileira de Jornalismo Investigativo (ABRAJI).

De modo geral, durante a sessão no Coda.Br em 2019, foi destacado que o “jornalismo tradicional” enfatiza abordagens qualitativas, em geral. Já o trabalho com dados traz outros desafios, com características próprias: é necessário saber lidar com dados estruturados e não-estruturados, ter algum conhecimento (mesmo que básico) na área de estatística e tomar cuidado com possíveis inferências causais na hora de interpretar os dados (conclusões sobre se um fator X causa um resultado Y, como o impacto dos índices de desemprego na segurança pública).

É fundamental ler as notas sobre as metodologias de registro dos dados que serão analisados. Isso ajuda a evitar erros básicos de interpretação: por exemplo, a data de registro de um dado pode ser diferente da data na qual ocorreu o fato registrado. O trabalho do jornalista de dados é conseguir olhar o que tem nos dados, checar a metodologia e, se precisar, saber criticar os números. É preciso avançar neste conhecimento constantemente, algo que não é tão óbvio quanto parece.

Seis dicas para dar o pontapé inicial

Por fim, vamos destacar seis dicas bem objetivas, que fora foram extraídas do texto ‘Como começar no jornalismo de dados‘. Confira o post original da Natália Mazotte para ver o detalhamento de cada uma delas.

  1. Ache um curso introdutório para chamar de seu
  2. Recorra a livros e tutoriais online
  3. Faça parte de uma comunidade (ou várias)
  4. Destrave o seu pensamento computacional
  5. Inspire-se com outros jornalistas da área
  6. Desenvolva seus próprios projetos

Outras referências interessantes

Vale a pena também conferir os seguintes links:

1. StackOverflow: um dos maiores repositórios de perguntas e respostas sobre tecnologia, programação, dados e etc
2. AfroPython: comunidade de pessoas usuários de Python com recorte afro
3. Abraji: tutoriais da Associação Brasileira de Jornalismo Investigativo
4. PyladiesBrasil: comunidades de usuárias de Python
5. MeetUp: plataforma para encontros presenciais
6. Edx: plataforma de ensino online
7. Jornalismo de Dados: fórum e prêmio mantidos pela Escola de Dados e ABRAJI
8. Cerveja com Dados: encontros presenciais promovidos pela Escola de Dados
9. R-Ladies: grupo de usuários de R
10. Escola de Dados: e, por fim, os nossos tutoriais 🙂

* As anotações referentes à sessão no Coda.Br 2019 foram feitas por Fernanda Patrocínio e Juliana Pinho. O tutorial foi revisado e complementado por Adriano Belisário.

Comments (1)

MARCOS TAVARES BRANDAO

Achei ótimo pois sou um iniciante, embora tenha mais de 20 anos de jornalismo.

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