O dado não está dado: ativismo de dados, corpos e territórios

SOBRE O PAINEL

Texto por Anicely Santos e Rodrigo Firmino

 

A proposta para esta roda de conversa surge da necessidade de compreender as dimensões do movimento de mobilização do ativismo de dados e suas diferentes formas de materialização regionais, nos corpos e nos territórios, algo que também atravessou outros momentos do Coda em Belém.

Gilberto e Rodrigo têm tentado compreender esse fenômeno olhando para a América Latina, com uma atenção direcionada para as periferias (em todos os sentidos, não apenas no geográfico). A hipótese deles é que o trabalho com dados, em suas diversas manifestações, faça parte de um tipo de resistência à opressão como forma de reivindicar um reposicionamento das periferias como centro na construção de outros futuros possíveis em todos os territórios, sendo o foco deles as grandes cidades latino-americanas.

Nos estudos urbanos, que é de onde Rodrigo vem, eles se apoiam em trabalhos como o da socióloga brasileira Ana Clara Torres Ribeiro, do geógrafo brasileiro Milton Santos e da urbanista indiana Ananya Roy para olhar para a inseparável coexistência de corpos e territórios — e por corpos, aqui, não pensando apenas nos corpos humanos — materializados na existência e na ausência de dados e conhecimento sobre as diversas camadas que formam a realidade cotidiana nas grandes cidades (mas não apenas nelas). É pensar o chamado território periférico — no contexto do que a Ananya Roy vai chamar de urbanismo subalterno, ou ainda o território usado para o Milton Santos e para a Ana Clara — considerando os corpos que co-constituem esses territórios, como tecnologias de (re)existência.

 

 

Rodrigo acredita que não é possível falar sobre uma coisa sem pensar na outra, principalmente na construção de resistências e futuros alternativos. No lugar dele de atuação, na academia, esse tem sido, tardiamente, um tema cada vez mais explorado em várias disciplinas, principalmente quando se valoriza uma perspectiva decolonial, a partir de outras compreensões do que possa ser o território.

Firmino relembra que alguns textos que tratam dessa indissociação entre corpos e territórios, e destaca um de autoria da antropóloga mexicana Delmy Tania Cruz Hernández, chamado “Una mirada muy otra a los territorios-cuerpos femininos”, no qual ela constrói essa ideia pela perspectiva do feminismo, o que torna o conceito ainda mais potente. “Mas isso também é, por exemplo, pensar sobre maretórios ou sobre ‘meu território, minha identidade’. A ideia de maretório é potente, pois são os corpos e o território situados, aterrados e encarnados”, afirma.

Rodrigo tem tentado pensar essas questões por meio de projetos de pesquisa, e apontou aos participantes da mesa que eles, além de suas relações com a academia, possuem a inestimável experiência do ativismo e do envolvimento direto com esses corpos-territórios (inclusive como parte dessa formação). “É o caso de perguntarmos o que significa pensar nessas relações aqui, e desde aqui, em Salvaterra, no Marajó, e com os corpos que aqui estão, ou mesmo de onde estivermos”, ressalta.

Ao final da abertura, Rodrigo afirma que esta roda pretende dar ênfase ao fato fundamental de que dados e narrativas são construções tecnopolíticas que implicam compreender as lutas (urbanas) por meio de alguns recortes: da existência, da inexistência, do apagamento, da emancipação, e da mobilização de dados e realidades do território para organizar interesses e visões de mundo em disputa. 

Em seguida, Rodrigo convidou Mariane Castro para iniciar as falas. Ela comentou sobre o empoderamento que os dados trazem a partir da construção das mulheres ribeirinhas e o quanto ela (Mariane) não se reconhecia como uma, por ter precisado sair do seu território para viver numa capital e acessar a academia.

Durante este processo, ela foi forçada a ir em busca do que a estava incomodando e foi não cabendo nestes espaços que ela se viu no processo de voltar para o Marajó e se entender. Ela complementa que foi no ativismo que ela adquiriu empoderamento e foram os dados construídos por ela e as mulheres ribeirinhas que trouxeram essa força. E encerrou sua fala com uma frase de sua avó: “se uma mulher te empresta farinha, é uma forma de fazer você existir no futuro”, entendendo que investir tempo para ajudar outras pessoas é uma forma de fazê-las subir mais um degrau.

 

 

Em seguida, Flávia Ribeiro ressaltou que nem todo dado traz os corpos, mas todos os corpos carregam dados. Ela sublinhou a importância do dado oralizado e a urgência de fazer esta construção antes que ele (os dados oralizados) se percam, com o falecimento dos mais velhos. Nessa narrativa, ela fez uma analogia com a Marcha das Mulheres Negras e a apresentação que é feito no início de maneira oralizada, mas o quanto isso acaba se perdendo sem documentação.

Ela apontou também a dificuldade de acesso na construção de dados por conta das ferramentas que não são acessíveis, seja pelo idioma ou pela linguagem técnica utilizada, e a necessidade de saber lidar com o dado e o tornar mais fácil de ser entendido para que chegue às pessoas, seja carregado por elas e somem à sabedoria que os corpos já possuem.

Flávia aponta que isso pode gerar inúmeros impactos e até políticas públicas e demonstrou a dificuldade a partir da infraestrutura e dos algoritmos para que as informações cheguem aos povos dentro do território. Na conclusão de sua fala, ela afirmou que o esperançar do povo local não é o do Paulo Freire, nem  é romantizado, mas o do joelho ralado, da luta e do suor. E provoca: como vocês, pessoas brancas, vão ajudar a gente, em vez de não falar pela gente?

Por fim, Gilberto Vieira conta na sua fala a experiência do data_labe, o objetivo que motivou o surgimento do laboratório e o quanto o trabalho da organização tem tentado apresentar mudanças a partir da geração cidadã de dados. Em sua fala, ele trouxe a ambientação do que é o conjunto de favelas da Maré, imerso em uma política de extermínio e a necessidade de existir um instrumento que pudesse dar conta do território e do corpo. Na busca por entender o motivo dos dados não conseguirem refletir a realidade do lugar, nasce o laboratório construído pelas pessoas do território que conseguem traduzir e entender a realidade local, produzindo histórias que não estavam sendo contadas com os dados que eram comumente usado por quem não entende a localidade. Nesse processo, ele explicou o conceito de como eles trabalham a produção dos dados localmente o como funciona a validação desses dados para serem considerados tão oficiais quanto os dados considerados oficiais.

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Flávia Ribeiro

Mãe, feminista negra afroamazônida, mestra em Ciências da Comunicação pelo Programa de Pós-graduação em Comunicação, Cultura e Amazônia (PPGCOM- UFPA), jornalista e consultora para equidade de raça e gênero. Integra os grupos de pesquisa Nós Mulheres – pela equidade de gênero étnico-racial (UFPA) – e Comunicação, Política e Amazônia (Compoa- UFPA). É ativista no Centro de Estudos e Defesa do Negro do Pará (Cedenpa), da Rede Fulanas – Negras da Amazônia Brasileira e da Rede Nacional de Ciberativistas Negras. Está na organização da Marcha das Mulheres Negras em Belém.

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Gilberto Vieira

Gilberto Vieira é co-fundador do data_labe, uma organização que levanta e divulga dados de forma cidadã e participativa sobre favelas e periferias brasileiras. É também pesquisador associado do Jararaca, um grupo de pesquisa em tecnopolíticas urbanas. Gilberto é gestor e produtor de ações e organizações coletivas desde 2008 . É mestre em Cultura e Territorialidades (UFF), doutorando em Gestão Urbana (PUCPR) e pesquisa a centralidade das periferias urbanas na era da colonialidade dos dados.

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Mariane Castro

Mulher ribeirinha, mobilizadora e articuladora cultural, ativista e multiartista com foco em identidade e cultura marajoara. Formada em comunicação social multimídia pela Estácio IESAM (Instituto de Ensinos Superiores da Amazônia) e técnico em teatro, produção cultural e design pela ETDUFPA (Escola de Teatro e Dança da Universidade Federal do Pará), vencedora junto ao Coletivo Vênus do Prêmio Branco de Melo com a exposição Mãe do Corpo. No Observatório do Marajó já foi coordenadora local de campanha, coordenadora de projetos, gestoras de projetos e atualmente estar como Gestora de Comunicação.

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Rodrigo Firmino

Coordenador do Jararaca Lab (Laboratório de Tecnopolíticas Urbanas), membro fundador da LAVITS (Rede Latino-americana de Estudos sobre Vigilância, Tecnologia e Sociedade), e professor do Programa de Pós-Graduação em Gestão Urbana da PUCPR.

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